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O agronegócio global tem passado, desde o início do ano, de um momento de levante dos produtores rurais em diversas partes do mundo, com pleitos importantes e que dizem respeito diretamente à segurança alimentar e a sustentabilidade desta atividade. “Isso se dá, principalmente no cenário europeu, mas não só”, afirma o professor da ESPM de São Paulo, Leonardo Trevisan, em entrevista ao Bom Dia Agronegócio, do Notícias Agrícolas, nesta sexta-feira (16). 
Parte desta revolta, segundo explica ele, vem de um momento em que novas cobranças e regulamentações acontecem sobre o setor produtivo ao mesmo tempo em que as commodities agrícolas passam por um ciclo de baixas e já trazem preocupações suficientes ao profissional do campo, além de margens muito achatadas. Além disso, há ainda medidas que resultam em um aumento dos custos de produção – como a retirada do subsídio ao diesel na Europa – e provocam ainda mais desgosto e faísca para novas manifestações. 
“Neste momento de crise, temos que adicionar às decisões econômicas, ações políticas. De 6 a 9 de junho há eleições para o Parlamento Europeu, os políticos estão absolutamente assustados com o crescimento de posições mais radicalizadas. O mais assustado é Macron. O mundo francês é diretamente atingido por essa pressão nos preços agrícolas e por uma decisão que estão tomando de tentar mexer na questão ambiental e tentar pressionar os agricultores com isso. É neste contexto que temos que olhar o acordo União Europeia-Mercosul. O Brasil se transformou, infelizmente, em um bode expiatório. Somos um escudo para o gravíssimo político que enfrente Macron”, detalha Trevisan. 
Desta forma, a utilização das declarações de Emmanuel Macron, presidente francês, sobre a não possibilidade de um acordo firmado entre Mercosul e União Europeia diz respeito, como explica o professor, diretamente, à sua sobrevivência política. Em contrapartidade, se fez famosa a imagem do primeiro ministro da França, Gabriel Attal, falando em um fazenda, em um improvisado púlpito feito de feno, garantindo diversas promessas, porém, recebendo a resposta dos produtores rurais: “não mudou nada. Aquilo que nos promete, que é não retirar os subsídios, apenas e tão somente não agrava”, relata Trevisan, que volta a afirmar que os agricultores seguem pressionados. 

PROTESTOS NA ÍNDIA
As manifestações têm acontecido também na Índia e, embora por motivos diferentes, a motivação é a mesma. Mais atenção ao setor produtivo e entendimento dos atuais momentos para a segurança alimentar do país mais populoso do mundo. 
“A Índia tem uma política de décadas chamada de segurança alimentar que é uma política de proteção à sua produção agrícola porque sabe que a fome na Índia pode ter consequências políticas dramáticas. É por isso que o governo de Narendra Modi, que sabe perfeitamente que precisa manter regulado o mercado, tem feito concessões para a estrutura agrária indiana, mas que não têm sido suficientes. Motivo: preços internacionais. Os preços caíram internacionalmente, porém, para o contexto indiano eles sobem, uma vez que a Índia recebe muita produção que é europeia, ucraniana, e isso faltou. Se o petróleo russo chegou na Ìndia 30% mais barato, o trigo ucraniano não chegou e o russo chegou com 10% a 20% de aumento. É neste contexto que Modi está preocupado. Se você tem uma crise de preços, tem também uma crise de oferta. E não só na Índia, mas vários países na mesma situação”, detalha o professor Trevisan. 
Assim, o especialista afirma ainda que o alerta é “se não pensar na agricultura, se não pensar em preço agrícola, isso vai custar muito caro politicamente. E este alerta está ficando cada vez mais forte, tanto para Macron, quanto para Modi, porque os agricultores estão chegando ao seu limite na relação de preços entre o custo de produção e o preço de venda. Essa realidade que qualquer um entende está cobrando seu preço político”.  
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