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Por Isadora Camargo — São Paulo

"A mulher sempre fez parte do agro no seu anonimato. Hoje, a realidade é outro. Ganhamos mais protagonismo por meio de nossa capacitação e sensibilidade", diz a produtora de grãos Ani Sanders. Ela é de Carazinho, no Rio Grande do Sul, mas já morou em diversas cidades agrícolas do país. Com o marido, ela administra o Grupo Progresso, detentor de 90 mil hectares plantados de soja e cereais.
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Ani é uma das embaixadoras da 9º edição do Congresso das Mulheres do Agro, que foi anunciada nesta quinta-feira (7/03) em São Paulo. Na função, ela quer aproveitar para disseminar conceitos de "bem plantar, bem estar e bem alimentar" da agricultura e acredita que são as mulheres donas dessa narrativa.
Este ano, o Congresso espera reunir 3,6 mil mulheres. De acordo com a organização, a primeira edição, em 2016, reuniu 600 representantes do agro, número que saltou ano passado para 3.300 ano passado.
Ao longo desse tempo, a organização destaca o aumento da presença feminina em cargos de liderança. De acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, elas ocupam atualmente cerca de 34% dos cargos de gestão na área, o que representa mais de 1 milhão de mulheres que comandam mais de 30 milhões de hectares no país.
A Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) mapeou essa participação e registrou que 59,2% das mulheres que atuam no setor são proprietárias ou sócias, 30,5% fazem parte da diretoria e atuam como gerentes, administradoras ou coordenadoras e 10,4% são funcionárias ou colaboradoras. Muitas vezes, elas herdam a propriedade quando ficam viúvas e têm papel fundamental para a sucessão no campo.
Genecilda Lourenço, de quase com 70 anos, é um exemplo. Viúva, ela decidiu aliar a produção familiar de hortaliças e leguminosas com um projeto de fornecimento de alimentos agroecológicos por assinatura. Além de feiras, ela criou esse "laço", como descreve, com professores e estudantes da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). É lá que ela vende a produção semanalmente e criou as "assinaturas mensais" para que o público consiga comprar a cesta agroecológica com produtos orgânicos.
Dona Gê, como é chamada, colocou um dos filhos para ajudá-la na pequena lavoura. Na horta coletiva, onde também há espécies florestais, há também a raiz da variedade yacon, originária da Cordilheira dos Andes e que foi muito consumida pelos incas. A adubação é com folhas e troncos de árvores existentes no espaço, como o eucalipto. Hoje, Genecilda também é líder da Rede de Mulheres em Defesa da Agroecologia do do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no assentamento Emiliano Zapata, localizado a 12 quilômetros da cidade de Ponta Grossa.
Os produtos da Dona Gê fazem parte também de cestas de produtos agroecológicos que são comercializadas por coletivos na região dos Campos Gerais. Um dos itens da cesta é o café orgânico da Chapada Diamantina, feito com grãos de muitos cafeicultores familiares da localidade.
Uma delas é a produtora de café Eurly de Souza, que mora em Lagoa da Boa Vista, próximo ao município baiano de Seabra. Ela e a filha cuidam de uma pequena plantação de arábica. Além de cuidar das plantas de café, ela coordena outras cafeicultoras na região. "Hoje, tenho 70 anos, mas nasci e fui criada nas pequenas roças de café. Nossa história está ligada ao grão", conta ela. De olho no clima, a maior preocupação do momento é evitar perdas grandes, já que só deve colher 30 sacas, para poder vendê-lo a torrefações de café especial e garantir a renda extra.

Setor masculino? Elas querem fazer a diferença

Com 52 anos, Elinay Santos trabalha há 20 em uma agroindústria de São Roque (SP), a Verdureira, onde ela é gerente de produção. Inicialmente, atuou na função de corte dos vegetais, que é o primeiro passo da produção de saladas gourmet. Lavagem, seleção, degustação, Elinay escalou etapa por etapa até chegar ao cargo máximo da fábrica.
Filha de feirantes, Nay – como é chamada pelas colegas de trabalho – tinha o sonho de fazer uma faculdade. Hoje ela é nutricionista, título que foi conquistado depois de ser ouvida por uma chefe na Verdureira: devido à carga horária na fábrica, não sobrava tempo para estudar. “Durante a faculdade, eu pude sair mais cedo do trabalho para assistir às aulas e também recebi auxílio financeiro para pagar as mensalidades”, relembra.
Anna Paula Nunes, que é engenheira civil de formação e administra a própria propriedade rural, onde produz grãos e cana, avalia que o cenário para as mulheres no agronegócio melhorou muito. “É mais comum hoje ver outras colegas conquistando o seu lugar no setor e mostrando seu protagonismo. O agronegócio ainda é um mundo muito masculino, o que aumenta os nossos desafios para nos destacar, mas estamos conquistando nosso espaço”. Nunes é a quarta geração na fazenda Jangada Brava e tem como braço direito sua filha Giovanna.
Carla Rossato, veterinária de formação e produtora de cereais, soja, milho e pecuária de corte no Paraná, diz que o crescimento da presença feminina no campo reflete um movimento que está ocorrendo em toda a sociedade. "Discriminação e preconceito ainda existem, mas sinto que isso está diminuindo ao longo do tempo porque as mulheres estão se preparando para se destacar no mercado e estão conseguindo", observa.

Líderes na cadeia de insumos

Na multinacional de insumos, Nutrien, um aumento no percentual de mulheres em cargos estratégicos tem sido registrado. Atualmente, as mais de 200 gestoras representam uma ocupação feminina de 36% dos postos de comando na estrutura das empresas da companhia no país.
Um processo que, na avaliação da diretora de RH da empresa para a América Latina, Clarissa Grunberg, já apresenta resultados positivos. “As lideranças femininas agregam características muito específicas à gestão corporativa e ao desenvolvimento do agronegócio como um todo”, explica.
À frente da estrutura de misturadores da Nutrien em Alfenas (MG), que inicia suas operações este mês, está a engenheira química Andrezza Chagas. Na empresa há dez anos a profissional passou por diferentes áreas da unidade, em uma trajetória ascendente de cargos.
Em 2020, assumiu a coordenação de toda a equipe industrial da Agrichem em Ribeirão Preto. Apelidada de “mãe” pela equipe, Andrezza, ano passado foi chamada para assumir a gerência geral da unidade e, poucos meses depois, veio o convite para assumir o comando das operações do novo blender em Alfenas. “O desafio aqui é iniciar do zero com padrões altos. Será uma unidade de grande automação e entramos já com uma grande base de aprendizado em procedimentos e excelência operacional”, detalha.
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