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A Wikipedia não trata com deferência ou delicadeza o cientista Luiz Carlos Molion. O perfil do professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas começa assim: “É um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil. É considerado um grande aliado do agronegócio brasileiro, sendo remunerado por palestras em que nega o aquecimento global”. Uma aula de como rebaixar um currículo. 
Em dezembro do ano passado, o respeitado Marcelo Leite, jornalista da Folha especializado em meio ambiente, foi igualmente ácido ao falar de Molion: “Palestrante que percorre o Centro-Oeste a soldo do ogronegócio para dizer o que bolsonaristas querem ouvir”. Leite comentava o depoimento do professor naquela CPI das ONGs arranjada para dar palanque à extrema direita. Aldo Rebelo cumpriu o mesmo papel. 
Físico e meteorologista, Luiz Molion tem 77 anos e uma trajetória reconhecida por seus pares na academia. Deu aulas e participou de projetos em universidades americanas. Durante décadas foi uma voz influente nos debates sobre fenômenos climáticos. Por muitos anos, aqui em Alagoas, aparecia nos telejornais toda vez que a cidade ou o campo eram assombrados por tempestades, secas, relâmpagos ou trovões. 
Em algum momento na aurora do século atual, o cientista reorientou sua agenda e mirou a pauta do aquecimento global. Sua tese pode ser resumida em dois pontos complementares. O primeiro: não existe a propalada elevação da temperatura do planeta. O segundo: mudanças climáticas não são provocadas pela ação humana. 
Ao detalhar sua visão, entende-se por que o homem virou a bíblia agrária dos ruralistas. “Se derrubar toda a floresta amazônica, não muda nada na situação do clima”, sustenta em palestras pelo Brasil. Ele explica que o que impacta a variação climática são os oceanos. Afinal o planeta é quase todo feito de água.
É a equação sob medida para os arautos da motosserra e do desmatamento. Seguindo o manual de Molion, pode desmatar à vontade. Floresta em pé ou devastada não faz diferença. Ele se orgulha de fazer mais de 50 palestras a cada ano para plateias do agro, confirmando o intenso fluxo de cachê em sua conta bancária de militante (foto).
No contra-ataque, o professor acusa interesses financeiros de empresas que negociam com energia limpa. Para ele, a tese do aquecimento ajuda a vender tecnologia. É a mesma acusação feita por outro cientista celebrado pelos ruralistas. Ricardo Felício, demitido da USP por sumir do trabalho, também é antivacina. 
Molion não se compara a Felício, um bolsonarista que tentou se eleger deputado pelo PL, mas teve votação pífia. O ex-professor da Ufal não se incomoda com o carimbo de negacionista. É um tanto melancólico vê-lo reduzido a ideólogo de figuras que exibem ideias e modos rudimentares. Não combina com sua história.
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