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Plano Safra recorde que foi anunciado parece não ser o suficiente para angariar apoio de fazendeiros e de um Congresso conservador
O plano de financiamento agrícola recorde que Luiz Inácio Lula da Silva revelou na quarta-feira (3) segue uma estratégia que uma vez o tornou um dos presidentes mais populares do mundo: ao liberar assistência governamental para um setor vital, ele poderia tanto impulsionar a economia brasileira quanto converter céticos em apoiadores. Mas 18 meses em seu segundo mandato como líder do país, é um manual que está se mostrando inadequado em um momento político tão polarizado e carregado ideologicamente.
O esquerdista que terminou seu primeiro mandato em 2010 com índices de aprovação superiores a 80% agora está atolado em um dos períodos mais difíceis de sua carreira. Sua popularidade caiu abaixo de 40% — perto dos níveis mais baixos de seu mandato atual — enquanto sua ambiciosa agenda estagnou em um Congresso conservador imune ao tradicional “toma lá, dá cá” em que ele continua a confiar.
Com as eleições municipais de outubro, que servirão como um termômetro de apoio, se aproximando, o plano de financiamento agrícola — que destinará mais de R$ 400 bilhões (US$ 73 bilhões) ao agronegócio — parece prestes a se tornar mais um fracasso político. Já, legisladores alinhados com o enorme setor, que permanece fortemente alinhado com a direita brasileira, indicaram que há pouca chance de Lula conquistá-los.
“Enquanto continuarem defendendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, defendendo a demarcação de terras indígenas, trabalhando contra a produção, trabalhando contra os mercados e falando mal de nós, não há nada que possam fazer para nos agradar,” disse Pedro Lupion, que lidera a bancada do agronegócio no Congresso, que inclui cerca de 60% dos legisladores brasileiros, em uma entrevista na véspera do anúncio.
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A agricultura emergiu como um campo de batalha político feroz em todo o mundo, particularmente em lugares onde os agricultores se revoltaram contra as transições econômicas impulsionadas pelas mudanças climáticas que líderes como Lula buscaram implementar.
Em muitos casos, eles optaram por apoiar os movimentos emergentes de direita que estão ganhando força na Europa e agora visam uma vitória em novembro nos EUA, onde Donald Trump está novamente buscando reforçar o apoio entre os agricultores.
É um novo mundo para Lula, que desfrutou de relações positivas com o setor do agronegócio durante o boom econômico impulsionado pelas commodities em seu primeiro mandato.
A indústria continuou a crescer em importância — a agricultura representa cerca de 24% do produto interno bruto, 50% das exportações e cerca de um quarto dos empregos do país. Mas os laços agrícolas com a esquerda se romperam quase completamente sob o presidente de direita Jair Bolsonaro, um aliado ideológico do setor não apenas na agricultura, mas em armas, questões sociais, segurança pública e outras causas conservadoras.
Reconstruí-los tem se mostrado uma tarefa quase impossível para Lula, que derrotou Bolsonaro por pouco em 2022 com uma plataforma que incluía promessas de reforçar as proteções para a floresta amazônica, proteger terras tribais da extração de recursos e impulsionar uma transição verde da economia brasileira.
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Ele fez aproximações: O plano safra do ano passado também estabeleceu um recorde, e Lula incluiu centenas de líderes do agronegócio em uma viagem à China destinada a impulsionar o comércio agrícola.
Mas ele às vezes também os criticou, culpando o agronegócio por apoiar a tentativa de insurreição de 2023 contra seu governo e repreendendo os legisladores por pressionarem para limitar os direitos das terras indígenas. A bancada rural, por sua vez, começou 2024 prometendo fazer uma ofensiva contra a agenda de Lula no Congresso.
“A questão ideológica nunca será superada, mas ninguém fez tanto pela agricultura quanto o presidente Lula,” disse José Guimarães, líder do governo na Câmara dos Deputados, em uma entrevista na quarta-feira. “Os agentes agrícolas são frequentemente injustos com o presidente.”
Mudanças políticas não são o único culpado: sob Bolsonaro, o Congresso brasileiro acumulou mais poder sobre o orçamento federal, limitando a capacidade do presidente de influenciar membros com gastos em projetos locais ou posições ministeriais. Nos últimos meses, Lula sofreu inúmeros reveses legislativos nos quais até mesmo partidos com cargos em seu gabinete se juntaram à oposição.
Ações recentes prejudicaram ainda mais as relações com a bancada do agronegócio. Uma mudança tributária surpresa proposta pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, irritou os traders de grãos e fez com que compradores chineses se voltassem para a soja produzida nos EUA no mês passado.
Embora o Senado tenha derrubado a proposta, ela causou uma perda irreversível de confiança em Haddad, deixando o Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, e o Vice-presidente, Geraldo Alckmin, como os únicos ministros com ligações funcionais com o setor, disse Lupion.
Lula tem tempo para se recuperar antes das eleições presidenciais de 2026. Suas lutas atuais, no entanto, fortaleceram o senso entre os oponentes de que os ventos políticos estão mudando a seu favor. A vitória do líder libertário argentino Javier Milei no ano passado, a força do partido de extrema-direita de Marine Le Pen nas eleições legislativas francesas e a perspectiva do retorno de Trump alimentaram esperanças de uma ressurreição.
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Mas eles podem receber mais um impulso neste fim de semana. Aproveitando vitórias que reforçaram sua posição em uma rivalidade com Lula, Milei está prestes a fazer sua primeira visita ao Brasil — não para reconstruir pontes com seu homólogo, mas para participar de um comício conservador ao lado de Bolsonaro no estado sulista de Santa Catarina, um bastião do agronegócio e reduto da direita brasileira.
Por Simone Iglesias e Daniel Carvalho

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