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Em entrevista exclusiva ao AgFeed, o diretor de agronegócio da gestora, Octaciano Neto, conta quais os próximos passos após finalizar a captação de R$ 62 milhões em seu mais recente Fiagro, que será listado na B3 em agosto, e avalia o fim da “falsa tempestade” que desacelerou o segmento desde o início do ano
Alessandra Mello
10/07/2024 07:31
Octaciano Neto, diretor de Agronegócios da Suno
Sociólogo por formação, produtor rural, ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo e líder do agronegócio em uma das principais gestoras independentes do mercado. Esse seria um breve perfil de Octaciano Neto, um capixaba que mudou para São Paulo há 4 anos, disposto a movimentar a nova onda do mercado de capitais – o financiamento do agro.
Quem costuma conversar com ele sabe que o entusiasmo com o tema vai além da posição que ocupa. Octaciano é uma espécie de “embaixador dos Fiagros”, que se divide entre a Faria Lima e as principais capitais do agronegócio.
Uma hora está em Mato Grosso, vez ou outra olha para a fazenda que a família ainda possui no Espírito Santo, mas com frequência também precisa estar atento ao que ocorre em Brasília.
Na semana passada, por exemplo, comemorou nas redes sociais a desistência do governo federal de taxar os Fiagros no Brasil. A proposta estava prevista em um dos capítulos do debate da Reforma Tributária, mas acabou sendo retirada, com apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e de integrantes do governo.
Dessa forma, a indústria dos Fiagros – Fundos de Investimento das Cadeias Produtivas do Agronegócio – seguirá isenta de Imposto de Renda, por exemplo, o que é um importante atrativo para atrair investidores de varejo e, de outro lado, garantir o financiamento da safra agrícola, que cada vez conta menos com juros subsidiados pelo governo.
Octaciano Neto assumiu como diretor de Agronegócios do grupo Suno em meados de 2022. Naquela época, a importância do setor era praticamente zero dentro da gestora. Mas ao receber o AgFeed, nos últimos dias, Octaciano fez as contas: hoje o agronegócio já representa 35% da Suno Asset, braço do grupo dedicado a gestão de investimentos (há também áreas de research, wealth e consultoria, na empresa).
O cálculo considera o principal Fiagro da Suno, o SNAG, criado em 2022 e que agora tem patrimônio de R$ 504 milhões, o CAFE11, fundo que foi lançado no ano passado em parceria com a fintech BigTrade, com valor estimado em R$ 30 milhões, e a mais nova aposta da gestora, um Fiagro dedicado ao mercado de terras, “dono” de fazendas, o SNFZ11, que teve sua oferta pública encerrada na última segunda-feira, captando R$ 62 milhões.
O entusiasmo da Suno com a nova investida – o Fiagro de fazendas – é fácil de entender. Ao contrário de outras gestoras, que viram o valor de mercado de seus fundos cair muito no início deste ano, no período que cresceram as preocupações com preços baixos das commodities e margens apertadas entre os produtores rurais, o negócio liderado por Octaciano teve um desempenho bem melhor, segundo ele mesmo faz questão de ressaltar.
Um dos indicadores desta situação mais confortável é o que se chama de “P/VP”, ou preço sobre valor patrimonial. Esse índice faz uma relação entre o valor patrimonial do Fiagro e o “valor de tela”, ou seja, quanto o mercado secundário está pagando por uma cota daquele fundo.
Um ranking divulgado na metade de junho pelo serviço “FII newspaper”, por exemplo, mostrou uma lista de 28 Fiagros, sendo que apenas quatro tinham o P/VP igual ou acima de 1 – quer dizer, seu valor patrimonial era no mínimo igual ao que o mercado estava pagando. No grupo de 4 estava o SNAG11, da Suno.
Nesse cenário, analistas ouvidos pelo AgFeed acreditam que o Fiagro da Suno é um forte candidato para uma nova emissão em breve. Isso porque, para os fundos em que é possível pagar no mercado secundário menos do que o valor patrimonial, não fica atrativo para o investidor participar da oferta. Portanto, seria melhor nem fazê-la – considerando apenas esse indicador, claro, afinal há outros elementos a serem considerados na hora de decidir por investir em determinado fundo.
Octaciano Neto diz que entre as características positivas do SNAG11 está o fato de até agora, mesmo no período mais desafiador, não ter inadimplência.
“Um segundo ponto é nossa estratégia de comunicação e transparência”, lembrou. A Suno diz manter um contato direto com os investidores via plataformas como Instagram e YouTube, fazendo lives, respondendo perguntas, de uma forma mais próxima que nem toda gestora consegue implementar.
“E é um time que combina conhecimento de gestão com conhecimento de agro. Esse é um jogo que você joga com os dois pés. Não dá para jogar se você só conhece de Faria Lima, nem adianta pegar gente só do agro, que nunca lidou com esse mundo”, afirmou Neto.
Na escolha dos ativos o critério tem sido não restringir uma só região ou cultura agrícola. Há uma presença razoável em grãos, já que o fundo inclui um CRA da Boa Safra Sementes, mas também abrange duas operações de café (um produtor do Sul de Minas Gerais e um FDIC com a BigTrade).
Na origem de Octaciano está o café conilon típico do Espírito Santo, mas esse ainda não chegou ao Fiagro. “Por enquanto é só arábica. Meu sonho é ter um pouquinho de Conilon, até porque está R$ 1.200 (a saca), eu tenho que trazer esse cliente pra cá, né?”, brincou o executivo.
O único critério rígido, segundo ele, é a capacidade de pagamento, trazer clientes que tenham capacidade de geração de caixa “acima da média”. “Somo um fundo high grade, que foca em operações mais seguras, mas pode ser de qualquer setor, qualquer região do Brasil”, explicou.
Para garantir essa segurança, ele conta que a Suno usa análise de risco de crédito da Serasa e da Sette. “Não compramos CRA no mercado secundário, 100% foi originado por nós”.
O SNAG11 começou com R$ 150 milhões, depois dobrou de tamanho e, ano passado, em nova emissão, chegou aos R$ 500 milhões. Em valores, é o quinto do ranking de Fiagros. Hoje conta com aproximadamente 100 mil cotistas, um número considerado alto pelo mercado.
Enquanto a Suno não revela se fará um follow on do SNAG11 (nem quando), já tem outras apostas na manga para seguir aumentando a fatia do agronegócio nos seus ativos sob gestão.
“Acho que o agro tem chance de chegar a 50% do total da Suno Asset nos próximos meses, afinal temos fundos diferentes e complementares”, avaliou Octaciano.
A aposta mais recente é o “Fiagro de fazendas”, que teve sua oferta pública encerrada essa semana, com a captação de R$ 62 milhões.
A previsão é que o IPO (listagem) do novo fundo na B3, denominado SNFZ (Suno Fazendas Fiagro Imobiliário), ocorra no mês de setembro.
Nos documentos regulatórios divulgados na abertura da oferta, a Suno informou que os recursos do Fiagro seriam “destinados, preponderantemente, para a aquisição de terra agrícola denominada Fazenda Coliseu, localizada na cidade de Gaúcha do Norte, no estado do Mato Grosso”.
Segundo o texto, a Fazenda Coliseu conta com mais de 800 hectares, dos quais 448,96 hectares são destinados a culturas anuais, sendo que 67,63% são utilizados para lavouras, enquanto o restante possui vegetação nativa.
O documento deixou claro que o Fiagro também previa a aquisição de CRA, para o investimento em novo sistema de irrigação a ser instalado na Fazenda Coliseu, em 449 hectares. O prazo total do CRA era de 15 anos, “com remuneração mensal de CDI + 4% a.a., e amortização a ser paga em seis parcelas nos últimos três anos”. Um anexo do mesmo documento detalhou que os R$ 62 milhões se dividiriam em R$ 31,8 milhões para “terra agrícola” e R$ 30,2 milhões para o CRA.
“A terra no Brasil valoriza mundo, nesse mundo de ativos estressados, investir em fazenda é sempre um porto seguro”, afirmou Octaciano Neto, ao justificar a nova investida.
Ele lembrou que estudos recentes feitos por instituições como FGV e S&P vêm mostrando uma valorização de mais de 10% ao ano no preço das terras agricultáveis no Brasil.
“A demanda por alimento, fibra e energia é crescente e você não tem mais terra disponível. É um estoque de ativo que já está dado”, reforçou.
Como o SNAG é um fundo majoritariamente de crédito, a ideia é diversificar as opções de investimento aos clientes, segundo Octaciano Neto, explicando que o novo fundo é predominantemente de terras, com a aquisição de fazendas em Mato Grosso para a produção de soja, que já estão arrendadas.
Produtos semelhantes no mercado, segundo ele, registram forte valorização patrimonial. A diferença seria o fato de pagar yields mais baixos do que no crédito, mas é algo que atende a um perfil de investidor que prefere ter mais rendimentos no longo prazo, e não “todo mês”.
O crescimento do setor agro na Suno conta também com outras frentes. Uma delas é próprio Fiagro relacionado ao café. No ano passado, a gestora vislumbrou uma meta de R$ 50 milhões para o CAFE11, patamar que deve ser atingido até o fim do ano, na expectativa dos gestores. O ritmo de crescimento foi menor em função do momento em que o cliente “estava mais árido para a captação”.
Octaciano Neto acha que o potencial seria até “dobrar de tamanho” porque considera o modelo de parceria com fintechs – nesse caso é a BigTrade – praticamente uma tendência no mercado, a exemplo de modelos recentes já mostrados pelo AgFeed, como o caso da AgroForte, ligada a pecuária.
“Rodamos o primeiro modelo, estamos olhando oportunidades para poder seguir nesse caminho”, afirmou.
Em paralelo, o “embaixador dos Fiagros” aguarda desdobramentos de uma ideia que vem defendendo nos últimos anos: a parceria com governos estaduais para ajudar a financiar produtores rurais, por meio do mercado de capitais.
A Suno está na corrida pelo primeiro Fiagro estadual que está sendo gestado pelo governo de São Paulo, como já mostrou o AgFeed. Caso vire realidade, a Desenvolve SP disse esperar viabilizar R$ 2,5 bilhões em crédito para os produtores paulistas por meio de Fiagros ou FIDCs.
A safra 2023/2023 foi marcada pela combinação de preços de soja e milho mais baixos, problemas climáticos e margens cada vez mais apertadas, o que acabou levando a um aumento no número de recuperações judiciais – embora ainda seja considerado muito baixo se comparado ao total de produtores rurais no País.
Esse cenário acabou respingando em alguns fundos e CRAs, com casos de inadimplência, o que trouxe mais cautela ao mercado, desacelerando o forte crescimento que a indústria de Fiagros, por exemplo, vinha registrado.
Na opinião de Octaciano Neto, “a tempestade nunca existiu”, verdadeiramente. Ele admite que houve problemas pontuais de pagamento, mas que a “crise” que muitos “tentaram fabricar, acabou não se materializando”.
A prova disso, segundo o diretor da Suno, são os números do setor, “o filme inteiro e não a foto”, como costuma dizer.
O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPB) continuou crescendo e mesmo os Fiagros seguiram avançando, porém em ritmo mais lento.
Pelos dados da Anbima, em dezembro de 2023 os Fiagros totalizavam R$ 21 bilhões. Em junho deste ano, já chegavam a R$ 36 bilhões. Porém esta conta inclui os listados e também aqueles que estão fora da bolsa.
Ao considerar apenas os dados da B3, o volume de Fiagros ficou quase estável. Estava em R$ 10,9 bilhões em dezembro e chegou a R$ 11,9 bilhões em maio de 2024.
“Como os Fiagros têm só dois anos, ao ouvir qualquer barulho, o pessoal acha que é tiro, quer se esconder”, diz o diretor da Suno, fazendo uma analogia com o comportamento de alguns investidores no momento em que os “ruídos” sobre o que ocorria com o agro aumentavam a cautela.
O reflexo foi uma queda generalizada no P/VP, para a maioria dos fundos listados, conforme comentamos no começo dessa reportagem.
“De fato a captação está crescendo, mas a curva perdeu tração. No início do ano, eram 494 mil cotistas e foi para 520 mil, cresceu pouco”, lembrou Octaciano.
Ele acredita que o segundo semestre será melhor que o primeiro nas captações do Fiagro, considerando que o El Niño chega ao fim e que “era tudo muito novo para o investidor”, acostumado com uma LCA, por exemplo, em que a rentabilidade não oscila.
“E quem toma decisão com o barulho da bala faz as piores escolhas”, ironizou novamente.
Na visão de Octaciano, os produtores rurais também estão aprendendo a lidar com o mercado de capitais. Ele critica a forte narrativa que houve de que havia uma grande crise instalada no setor.
“O crédito (agrícola) no Brasil era só público 30 anos atrás, mas o plano safra passou a não dar conta disso e veio o crédito privado. Primeiro entrou o Barter, depois entraram os bancos, mais públicos, as cooperativas de crédito, os bancos privados e, por último, agora, do ponto de vista histórico, entrou o mercado de capitais”, lembrou.
A questão é que, segundo ele, antes era necessário descrever um quadro pior possível para ter auxílio de Brasília. “Mas acontece que hoje dois terços do financiamento é privado e, nesse mundo conectado, quando você fala em tempestade, em fim do mundo, com Brasília, a Faria Lima ouve e é um tiro no pé”, ressaltou.
O diretor da Suno diz que é um processo de reconstrução da narrativa, que aos poucos vai ocorrer, tanto para os produtores como para as entidades do setor.
Ele lembrou que nos Estados Unidos, atualmente, 75% do crédito (não somente agro) vem do mercado de capitais. “No Brasil, está encostando em 30% e eu não tenho dúvida que o grande financiador do Brasil vai ser o mercado de capitais”.
Neto estima que aproximadamente 15% do financiamento do agro brasileiro, hoje em dia, já esteja relacionado ao mercado de capitais, embora nem sempre o produtor rural perceba, já que, por exemplo, uma revenda emite um CRA, mas na sua realidade o agricultor entende que foi financiado pela empresa.
“O crescimento do agro já está contratado. Às vezes você está mais inclinado, crescendo muito, às vezes mais horizontalizado, mas, se você olha pra trás, é sempre crescendo e os fundos têm quem acompanhar isso”, acrescentou.
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